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Sócio que Trabalha Mais Deve Ter Mais Participação na Clínica?

há 1 hora
6 min de leitura
Sócio que Trabalha Mais Deve Ter Mais Participação na Clínica?
Sócio que Trabalha Mais Deve Ter Mais Participação na Clínica?

Um dos conflitos mais comuns em clínicas nasce de uma frase aparentemente justa: “eu trabalho mais, então deveria ter uma parte maior”. À primeira vista, faz sentido. Se um sócio atende mais pacientes, assume mais plantões, resolve problemas operacionais e aparece todos os dias, por que teria a mesma participação de quem atua menos?


A resposta curta é: nem sempre.


Trabalhar mais pode justificar remuneração maior. Pode justificar bônus por produção. Pode justificar pró-labore diferente. Mas não necessariamente justifica aumentar quotas societárias ou participação na clínica.


A confusão acontece porque muitos sócios misturam três coisas diferentes:


  • Quem é dono da clínica

  • Quem trabalha na clínica

  • Quem gera resultado para a clínica


Quando esses papéis ficam embaralhados, a sociedade médica começa a funcionar na base da percepção, não de regras. E percepção, quase sempre, vira conflito.



Participação societária não é salário


A primeira separação que uma boa sociedade precisa fazer é entre participação societária e remuneração pelo trabalho.


A participação societária representa propriedade. Ela reflete quanto cada sócio possui da empresa. Em geral, nasce de fatores como:


  • Capital investido

  • Risco assumido

  • Ativos aportados

  • Marca construída

  • Carteira de pacientes trazida para a clínica

  • Responsabilidades assumidas no início

  • Valor econômico do negócio no momento da entrada de cada sócio


Já a remuneração pelo trabalho reflete a atuação diária. Ela pode considerar atendimento, gestão, captação ética de pacientes, liderança técnica, administração financeira, coordenação de equipe e outras funções.


Misturar essas duas coisas cria distorções.


Imagine uma clínica com dois sócios. Cada um investiu metade do capital inicial, assinou contratos, assumiu risco financeiro e construiu a operação desde o começo. Depois de alguns anos, um deles passa a atender mais porque tem agenda mais disponível. Isso, por si só, não significa que ele virou mais dono da empresa.


Significa que ele está trabalhando mais. E trabalho deve ser remunerado como trabalho.


Por outro lado, se um sócio entrou depois, sem aportar capital proporcional, recebeu parte da empresa por expectativa de contribuição futura e depois passou a entregar muito mais do que o combinado, aí a discussão pode ser outra. Talvez faça sentido rever a estrutura. Mas isso deve acontecer com critério, números e acordo formal.


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O erro que causa boa parte dos conflitos entre sócios


Muitas clínicas começam com uma divisão simples: 50% para cada um, 33,33% para três pessoas, 25% para quatro. Essa divisão parece justa no início porque evita uma conversa difícil.


O problema aparece quando a realidade muda.


Um sócio atende mais. Outro se dedica à gestão. Outro reduz a carga horária. Alguém traz mais pacientes. Alguém resolve fornecedores, equipe, agenda e convênios. Alguém quase não aparece, mas continua recebendo lucros como se nada tivesse mudado.


A partir daí, surge a sensação de injustiça.


O sócio mais presente sente que carrega a clínica. O sócio menos presente pode entender que já investiu, assumiu risco e tem direito aos lucros. Ambos podem ter parte da razão.


O erro está em não ter definido, antes do problema aparecer, o que cada pessoa receberia por cada papel.


Uma clínica bem organizada enxerga os sócios em “camadas”:


Papel

O que remunera

Como pode ser pago

Sócio investidor

Capital e risco

Distribuição de lucros

Sócio profissional

Atendimento e produção

Remuneração médica, comissão ou produção

Sócio gestor

Gestão e responsabilidades administrativas

Pró-labore de sócios ou bônus de gestão

Sócio estratégico

Marca, relacionamento ou desenvolvimento do negócio

Modelo específico previsto em acordo


A mesma pessoa pode ocupar mais de um papel. Mas cada papel precisa ter regra própria.


Quando trabalhar mais deve gerar remuneração maior


Se um sócio trabalha mais na operação, a solução mais limpa costuma ser ajustar a remuneração, não a sociedade.


Isso pode acontecer por meio de:


  • Pró-labore fixo para funções de gestão

  • Remuneração variável por produção médica ou odontológica

  • Percentual sobre procedimentos realizados

  • Bônus por metas operacionais

  • Pagamento por coordenação técnica

  • Distribuição de lucros clínica após remunerações previamente definidas


Esse modelo evita um problema sério: transformar uma diferença temporária de dedicação em mudança permanente de propriedade.


A carga de trabalho muda ao longo do tempo. Um sócio pode reduzir agenda por motivo familiar, saúde, pesquisa, docência, expansão de outra unidade ou estratégia comercial. Outro pode assumir mais atendimentos por um período. Se cada mudança de rotina alterar as quotas societárias, a clínica vira um organismo instável.


A participação societária clínica deve ser tratada com mais cuidado do que uma escala de atendimentos.


Isso não quer dizer que o sócio que trabalha mais deva “aceitar calado”. Pelo contrário. Se ele entrega mais valor operacional, a clínica precisa pagar por isso de forma clara.


A pergunta correta não é apenas “quem deve ter mais quotas?”. A pergunta melhor é: qual contribuição está sendo feita e qual remuneração corresponde a ela?


Quando pode fazer sentido ter participação maior


Existem situações em que a participação maior pode ser justa. Mas elas precisam ir além da quantidade de horas trabalhadas.


A diferença nas quotas societárias pode fazer sentido quando um sócio:


  • Aportou capital maior na abertura ou expansão

  • Assumiu dívidas, garantias ou riscos desproporcionais

  • Cedeu ponto comercial, equipamentos ou estrutura relevante

  • Trouxe uma carteira de pacientes com valor real para o negócio

  • Construiu a marca que sustenta a demanda da clínica

  • Entrou em momento diferente, quando a empresa já tinha valor

  • Aceitou metas de permanência, crescimento ou entrega futura

  • Comprou participação de outro sócio com base em avaliação econômica


Nesses casos, a desigualdade não vem apenas do esforço diário. Ela vem de contribuição patrimonial, risco ou valor econômico.


Ainda assim, é preciso cuidado. “Eu trouxe mais pacientes” ou “minha reputação vale mais” são afirmações que precisam ser traduzidas em critérios. Caso contrário, a conversa fica subjetiva.


Uma forma prática é avaliar:


  1. O que cada sócio aportou no início

  2. O que cada sócio entrega hoje

  3. O que a clínica perderia se essa pessoa saísse

  4. Qual valor econômico pode ser atribuído a essa contribuição

  5. Se a diferença deve afetar quotas, remuneração ou ambos


Nem toda contribuição estratégica precisa virar participação. Às vezes, um bônus bem desenhado resolve melhor.


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O risco de premiar trabalho com quotas


Dar mais participação ao sócio que trabalha mais pode parecer uma solução simples. Mas ela cria riscos.


O primeiro risco é a permanência da alteração. Se a pessoa trabalhou mais por dois anos e recebeu mais 10% da clínica, o que acontece se depois ela reduz a agenda? A participação volta? Quem avalia isso? Com qual fórmula?


Riscos da Permanência da Alteração


O primeiro risco a ser considerado é a permanência da alteração na participação da clínica. Quando um profissional trabalha mais intensamente por um período, por exemplo, dois anos, e recebe um aumento de 10% na sua participação, surgem diversas questões a serem avaliadas caso haja uma redução na carga horária ou na agenda de atendimentos.


Questões a Considerar

  • Retorno à Participação Anterior: O que acontece com a participação do profissional se ele decidir reduzir a sua carga horária? A participação deve voltar ao que era anteriormente ou permanece alterada?

  • Avaliação da Situação: Quem será responsável por avaliar a situação? É necessário um comitê ou um gestor designado para tomar essa decisão?

  • Fórmula de Cálculo: Qual fórmula será utilizada para determinar a nova participação? É essencial que haja um método claro e justo para garantir que todos os envolvidos compreendam como a participação é calculada.


Propostas para Mitigar Riscos


Para minimizar esses riscos, algumas propostas podem ser implementadas:

  • Cláusulas Contratuais: Incluir cláusulas específicas no contrato que definam claramente as condições sob as quais a participação pode ser alterada.

  • Avaliações Periódicas: Realizar avaliações periódicas da carga de trabalho e das contribuições de cada membro da equipe para ajustar as participações conforme necessário.

  • Definição de Metas: Estabelecer metas claras que, se atingidas, garantam a manutenção da participação aumentada, mesmo em caso de redução da carga horária.


Conclusão


A permanência da alteração na participação em uma clínica é um assunto complexo que requer atenção cuidadosa. É fundamental que haja um entendimento claro entre todos os envolvidos sobre como as alterações serão tratadas, para evitar conflitos e garantir um ambiente de trabalho harmonioso e justo.


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