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Como distribuir lucros entre sócios com produções diferentes em clínicas médicas e odontológicas

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  • há 5 horas
  • 9 min de leitura
Close-up de instrumentos clínicos ao lado de um caderno de controle financeiro.
Separar produção, custos e lucro evita que a retirada dos sócios vire uma disputa pessoal.

Quando dois sócios trabalham na mesma clínica, mas produzem volumes muito diferentes, a divisão igualitária dos lucros começa a gerar desconforto. Um sente que carrega mais atendimentos. O outro pode lembrar que investiu mais capital, assumiu mais risco, cuida da gestão ou trouxe a carteira inicial de pacientes.


Esse conflito aparece com frequência em clínicas médicas e odontológicas porque há três coisas misturadas no mesmo caixa: remuneração pelo trabalho, retorno pelo investimento e lucro do negócio. Se tudo entra em uma única conta mental, a retirada vira disputa.


A solução não está em escolher entre “dividir tudo igual” ou “pagar só por produção”. O caminho mais seguro costuma ser separar papéis, criar critérios claros e formalizar uma regra que todos entendam antes do dinheiro chegar à conta.



O erro mais comum é tratar todos os valores como lucro


Em muitas clínicas, a conversa começa assim: “A clínica faturou bem, então vamos dividir o resultado”. O problema é que faturamento não é lucro. E nem todo valor que sai para o sócio tem a mesma natureza.


Antes de definir qualquer regra de distribuição, vale separar quatro conceitos.


Faturamento

É o total recebido ou a receber pelos atendimentos, procedimentos, exames, cirurgias ou tratamentos.


Custo direto

São custos ligados à produção daquele atendimento. Em odontologia, podem incluir materiais, laboratório protético, alinhadores, implantes e descartáveis. Em medicina, podem envolver materiais, taxas, medicamentos usados em procedimento, exames vinculados ou repasses técnicos.


Despesas da clínica

Incluem aluguel, equipe, sistemas, manutenção, marketing, contabilidade, limpeza, energia, equipamentos, financiamentos e outros gastos fixos ou variáveis.


Lucro distribuível

É o que sobra depois de pagar custos, despesas, impostos, reservas e compromissos da clínica.


Quando esses blocos não estão separados, um sócio que produz mais pode achar injusto dividir igualmente. Ao mesmo tempo, um sócio que atua menos na agenda, mas financiou estrutura, assumiu garantias ou lidera a administração, também pode se sentir prejudicado se tudo for medido apenas por atendimento.


Comece distinguindo os papéis de cada sócio


Em clínicas pequenas e médias, a mesma pessoa costuma acumular vários papéis. Isso dificulta a distribuição.


Um sócio pode ser, ao mesmo tempo:


  • profissional assistencial que atende pacientes;

  • investidor que colocou capital inicial;

  • gestor que cuida de equipe, agenda, compras e indicadores;

  • responsável técnico ou clínico;

  • captador de relacionamentos e convênios;

  • dono de quotas da sociedade.


Cada papel pode merecer uma forma diferente de remuneração. O erro é remunerar todos por uma única régua.


Por exemplo, uma cirurgiã-dentista que atende quatro dias por semana e um sócio que atende um dia, mas coordena toda a operação, não estão contribuindo do mesmo jeito. A clínica precisa reconhecer o volume assistencial de um e a função de gestão do outro. Se isso não estiver escrito, a sensação de injustiça cresce.


A discussão sobre retirada de socios clinica costuma nascer justamente dessa confusão entre trabalho, gestão e participação societária.


Separe pró-labore, remuneração por produção e distribuição de lucros


Uma estrutura mais saudável costuma ter três camadas de pagamento. Elas não precisam existir em todas as clínicas, mas ajudam a organizar a conversa.


Pró-labore remunera função contínua


O pró-labore é a remuneração do sócio que trabalha regularmente na clínica em uma função definida. Pode ser uma atuação administrativa, clínica ou técnica.


Ele não deve ser confundido com lucro. É uma despesa da operação, combinada previamente, que reconhece uma atividade recorrente.


Exemplos:


  • sócio que exerce direção clínica;

  • sócia que gerencia equipe e compras;

  • sócio que responde por planejamento financeiro;

  • profissional que cumpre agenda fixa de atendimentos.


O valor pode ser fixo, variável ou misto, desde que caiba no caixa e esteja alinhado à realidade tributária e contábil da empresa. Aqui, é essencial contar com contabilidade especializada, porque a forma de pagamento tem efeitos fiscais e previdenciários.


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Remuneração por produção reconhece o atendimento realizado


A produção individual é relevante em clínicas onde os sócios também são os principais profissionais assistenciais. Nesse caso, faz sentido remunerar parte do resultado conforme o que cada um efetivamente produz.


Mas produção bruta pode enganar. Um procedimento de alto faturamento pode ter custo direto alto. Outro pode faturar menos, mas deixar margem melhor. Por isso, muitas clínicas preferem olhar para margem de contribuição, não apenas para receita.


Uma lógica simples seria:


  1. identificar a produção individual;

  2. descontar custos diretos daquele atendimento;

  3. aplicar o critério de repasse combinado;

  4. registrar tudo de forma transparente.


Isso evita que um sócio receba mais apenas porque vendeu procedimentos caros, mesmo que a margem real tenha sido baixa.


Distribuição de lucros remunera a participação no negócio


Depois de pagar custos, despesas, pró-labores, remunerações por produção, tributos e reservas, a clínica pode apurar o lucro distribuível.


Esse lucro pertence à sociedade. Em regra, a distribuição segue o contrato social ou acordo de sócios. Pode acompanhar o percentual de quotas ou outro critério permitido e formalizado.


Aqui entra uma decisão estratégica: o lucro deve premiar apenas quem produziu mais, ou também quem assumiu risco como sócio? Em muitos casos, a resposta equilibrada é manter a distribuição societária para o lucro final e usar a remuneração por produção em camada separada.


Modelos possíveis para clínicas com produtividade diferente


Não existe uma fórmula única. A melhor regra depende do porte da clínica, especialidades, custos, agenda, maturidade financeira e relação entre os sócios.


Ainda assim, alguns modelos aparecem com frequência.


Modelo

Como funciona

Quando pode fazer sentido

Principal cuidado

Divisão integral por quotas

O lucro é distribuído conforme participação societária

Sócios têm contribuições parecidas ou valorizam o investimento acima da produção

Pode desmotivar quem produz mais

Produção individual antes do lucro

Cada sócio recebe por sua produção, e o saldo vira lucro da empresa

Há grande diferença de agenda ou volume assistencial

Exige controle de custos por procedimento

Pró-labore mais participação no lucro

Sócios que trabalham recebem pró-labore, e o lucro segue quotas

Um sócio atua mais na gestão ou na clínica

O pró-labore precisa refletir a função real

Modelo híbrido

Combina produção, gestão, quotas e metas financeiras

Clínicas com operação mais complexa

Precisa de regras simples para não virar disputa mensal

Fundo comum com metas

Parte do resultado fica na clínica, parte é distribuída

Clínica em crescimento ou com dívida

Requer disciplina para não sacar todo o caixa


O modelo híbrido costuma ser o mais justo quando há diferenças claras de carga de trabalho. Ele permite equilibrar retirada de lucros entre socios de clinicas sem ignorar o capital investido nem a produção individual.


Um exemplo prático de divisão em camadas


Imagine uma clínica odontológica com dois sócios. Ambos têm 50% da empresa. A sócia A atende quatro dias por semana. O sócio B atende dois dias e cuida da gestão administrativa.


Se a clínica simplesmente dividir todo o lucro meio a meio, A pode sentir que sua produção está subsidiando B. Se tudo for pago por produção, B pode sentir que a gestão, as compras, a negociação com fornecedores e o controle da equipe não valem nada.


Uma regra em camadas poderia funcionar assim:


  1. a clínica paga custos diretos de cada procedimento;

  2. cada sócio recebe uma remuneração por produção com base na margem dos atendimentos;

  3. o sócio que faz gestão recebe pró-labore pela função administrativa;

  4. a clínica reserva uma parte do caixa para impostos, manutenção, investimentos e capital de giro;

  5. o lucro líquido remanescente é distribuído 50% para cada sócio, conforme quotas.


Esse modelo não significa que a divisão será sempre perfeita. Mas deixa claro o motivo de cada retirada. A produção remunera o trabalho clínico. O pró-labore remunera a função. O lucro remunera a sociedade.


O que medir antes de mudar a regra de retirada


Mudar a distribuição sem dados costuma piorar o clima entre sócios. Antes de propor uma nova regra, a clínica precisa levantar informações mínimas.


Produção por sócio


Não basta saber quem faturou mais. É preciso acompanhar:


  • número de atendimentos;

  • procedimentos realizados;

  • ticket médio;

  • taxa de retorno;

  • glosas ou inadimplência, quando houver;

  • cancelamentos;

  • produção recebida, não apenas lançada.


Em clínicas odontológicas, tratamentos longos, parcelamentos e custos laboratoriais pedem cuidado especial. Em clínicas médicas, diferenças entre consulta, procedimento, convênio e particular também precisam aparecer nos relatórios.


Margem por tipo de atendimento


Dois sócios podem faturar valores parecidos e gerar lucros muito diferentes. Isso acontece quando os custos diretos variam bastante.


A clínica deve saber quais serviços deixam mais margem e quais exigem mais estrutura. Sem isso, a discussão fica baseada em impressão.


Tempo dedicado à gestão


O trabalho invisível pesa. Alguém negocia aluguel, resolve conflito de equipe, confere repasses, acompanha indicadores, escolhe fornecedores e lida com manutenção. Se esse trabalho não for reconhecido, ele vira ressentimento.


Uma saída simples é listar responsabilidades de gestão e atribuir remuneração ou crédito para quem as executa de modo contínuo.


Capital investido e risco assumido


Sócio que colocou mais dinheiro, deu garantia pessoal ou assumiu financiamento pode ter direito a tratamento diferente, se isso foi combinado. O ponto central é não tentar corrigir esse desequilíbrio de forma informal, mês a mês, sem contrato.


Regras que reduzem conflito entre sócios


A distribuição de lucro socios clinica precisa ser previsível. Quanto mais a regra depende de negociação emocional no fim do mês, maior o risco de desgaste.


Algumas práticas ajudam bastante.


Defina uma periodicidade de apuração

Pode ser mensal, trimestral ou em outro intervalo. O importante é evitar retiradas aleatórias conforme o saldo bancário do dia.


Crie uma reserva obrigatória

Clínicas precisam de caixa para impostos, férias da equipe, manutenção, compra de materiais, equipamentos e meses mais fracos. Distribuir tudo pode parecer bom no curto prazo, mas fragiliza a operação.


Não misture conta pessoal com conta da clínica

Pagamentos pessoais feitos pela clínica distorcem o resultado e geram desconfiança. Cada retirada precisa ter natureza, valor e registro.


Use relatórios simples e acessíveis

Painéis complexos demais não sobrevivem. O ideal é que todos entendam produção, custos, despesas, reservas e lucro.


Revise a regra em datas combinadas

A vida muda. Um sócio pode reduzir agenda, assumir nova especialidade, entrar em licença ou ficar mais voltado à gestão. A regra deve prever revisão, mas não pode mudar toda semana.


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O acordo de sócios é tão importante quanto a fórmula


A fórmula financeira só funciona se estiver protegida por documentos claros. O contrato social define a estrutura da empresa, mas nem sempre resolve detalhes operacionais da relação entre sócios.


Por isso, clínicas com mais de um dono devem considerar um acordo de sócios. Esse documento pode tratar de pontos como:


  • critérios de pró-labore;

  • regra de remuneração por produção;

  • distribuição de lucros;

  • reserva mínima de caixa;

  • entrada e saída de sócios;

  • afastamento temporário;

  • licença, doença ou redução de agenda;

  • venda de quotas;

  • método de avaliação da clínica;

  • responsabilidades de gestão;

  • solução de impasses.


Sem esse acordo, uma diferença de produtividade pode virar uma crise societária. Com o acordo, a conversa continua difícil, mas passa a ter trilho.


Este conteúdo é informativo e não substitui orientação de contabilidade, advocacia ou consultoria financeira. Cada clínica deve avaliar seu contrato, regime tributário, regras profissionais e realidade operacional antes de alterar retiradas.


Quando a divisão igualitária ainda pode funcionar


Dividir lucros igualmente não é sempre errado. Pode funcionar quando os sócios têm participações iguais, produções parecidas e responsabilidades equivalentes. Também pode fazer sentido quando a clínica já tem equipe assistencial contratada e os sócios atuam mais como investidores ou gestores.


O problema começa quando a igualdade formal ignora diferenças reais. Se um sócio abre mais horários, atende mais pacientes, gera mais margem e ainda participa da gestão, a divisão puramente igual tende a desgastar a relação.


Da mesma forma, pagar tudo por produção pode enfraquecer a visão de empresa. A clínica precisa de investimento, marca institucional, processos, equipe e gestão. Se cada sócio olha apenas para sua própria agenda, o negócio perde força.


O equilíbrio está em remunerar cada contribuição no lugar certo.


Um bom modelo precisa ser simples o bastante para ser cumprido


Muitas sociedades criam fórmulas sofisticadas que ninguém consegue aplicar. Depois de alguns meses, voltam às retiradas informais.


Uma boa regra deve responder, com clareza:


  • quanto cada sócio recebe pelo trabalho clínico;

  • quanto recebe pela gestão, se exercer essa função;

  • quanto fica retido para a clínica;

  • quando o lucro será distribuído;

  • qual relatório será usado;

  • quem valida os números;

  • o que acontece se alguém reduzir a produção.


Se a regra não cabe em uma página, talvez esteja complexa demais para a rotina da clínica.


O melhor acordo é aquele que evita conversa difícil todo mês


Distribuir lucros entre sócios com produções diferentes exige maturidade. A clínica precisa parar de tratar retirada como favor, disputa ou prêmio pessoal. Cada pagamento deve ter uma razão clara.


A sequência mais segura é:


  1. medir produção e margem;

  2. reconhecer funções de gestão;

  3. separar pró-labore, produção e lucro;

  4. criar reserva de caixa;

  5. formalizar a regra;

  6. revisar em períodos definidos.


Quando esses pontos estão claros, a sociedade fica menos dependente da boa vontade do momento. O sócio que produz mais vê seu esforço reconhecido. O sócio que investiu, gere ou assumiu risco também tem seu papel protegido. E a clínica deixa de ser apenas um lugar de atendimentos para funcionar como uma empresa saudável.


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